quinta-feira, 9 de junho de 2016
domingo, 5 de junho de 2016
MAIS REPERCUSSÕES PPO...
Um filme: “Passaporte para Osasco”, de Rui de Souza
Para Rosa Lopes Martins
Maio de 1979: José Ibrahim chega ao aeroporto de Viracopos
em Campinas depois de dez anos de exílio no México, Cuba, Panamá, Chile e
Bélgica. As imagens do final do filme “Passaporte para Osasco”, de Rui de Souza
(2016, 90 min.), retomam as lembranças de um período da história da cidade: a
greve de julho de 1968.
Há depoimentos do líder sindical e dos seus companheiros
operários: José Groff, João Joaquim da Silva, Roque Aparecido da Silva, Inácio
Pereira Gurgel, Terezinha de Jesus Gurgel, Antonio Roberto Espinosa – e das
professoras Helena Pignatari Werner e Risomar Fasanaro.
A greve de 16 de julho de 1968 não foi apenas
reivindicatória – contra o arrocho salarial, direito à greve, mas política – e
houve ocupação de fábrica. Foi organizada a partir da Comissão de Fábrica da
Cobrasma e do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco – e outras empresas da
cidade também paralisaram: Brown Boveri, Braseixos, Barreto Keller, Lonaflex.
Foi um movimento libertário de enfrentamento da ditadura militar no Brasil.
Os grevistas pagaram um alto preço pela ousadia de desafiar
a tirania. José Ibrahim foi preso, torturado,
exilado, e os trabalhadores foram fichados pelo DOPS (Departamento de Ordem
Política e Social). Perseguidos pela repressão policial, constantemente
vigiados, não conseguiam trabalho nas fábricas.
Quem eram os outros companheiros? José Campos Barreto
permaneceu 90 dias preso depois da greve, e entrou para a clandestinidade,
assassinado com o Capitão Carlos Lamarca em 1971; João Batista Cândido mudou-se
para São José dos Campos; o padre operário Pierre Joseph Wauthier foi expulso
do Brasil. Pedro Tintino da Silva e Joaquim Miranda permaneceram na cidade.
Qual o papel dos estudantes na revolta operária? As escolas
públicas da cidade, GEPA (Ginásio Estadual de Presidente Altino), e Ceneart (Colégio Estadual Antonio Raposo Tavares) , eram frequentadas pelos estudantes-operários
– e foram centros de agitação política-ideológica. O presidente da UEO (União
dos Estudantes de Osasco), Gabriel Roberto Figueiredo, militante do PCB (Partido
Comunista Brasileiro), foi preso no 4º
Regimento de Infantaria em Quitaúna depois do golpe de 1964. A UEO foi extinta,
e os estudantes fundaram o CEO (Centro Estudantil de Osasco), e José Campos Barreto,
aluno do Curso Clássico no Ceneart e operário da Cobrasma, foi seu primeiro
presidente.
Qual o papel das mulheres no movimento grevista? As operárias
da fábrica de fósforos Granada entraram em greve em solidariedade, e foram em
passeata até o sindicato. A professora de História, Helena Pignatari Werner, também
presa no 4º R.I. em 1964, continuou lecionando na Escola Estadual Antonio
Raposo Tavares; escreveu o livro “Raízes do movimento operário em Osasco”
(Cortez Editora, São Paulo, 1981, 152 pp). A escritora-poetisa Risomar Fasanaro militou
junto aos movimentos culturais da cidade durante os anos de resistência.
Qual o papel da Igreja Católica na organização dos trabalhadores?
Foram cinco movimentos: as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), a presença dos
padres operários, a ACO (Ação Católica Operária), a Frente Nacional do
Trabalho, a JOC (Juventude Operária Católica). Os militantes da FNT Albertino
de Souza Oliva, Antonio Vieira de Barros, Odim Jiorjon e Maria Santina vivem na cidade; Alberto Abib Andery vive em
São Paulo. Padre Domingos Barbé faleceu em 1988, e padre Rafael (Antonio Álico
Busato) em 2002.
Quais personagens o filme recorda – e que não estão mais
presentes? O estudante Sergio Zanardi se suicidou; João Domingos da Silva
morreu no Hospital Geral do Exército em São Paulo; Eremias Delizoicov,
estudante secundarista do bairro da Moóca, engajado na campanha do Fundo de
Greve, morto em 1969 - são alguns deles. E aqueles que não foram citados: Maria
de Lourdes Vieira Brengel, militante da JOC, faleceu em 2013; e o professor de
História no Gepa (Ginásio Estadual de Presidente Altino), Josué Augusto da
Silva Leite.
Os depoimentos recordam como os sindicalistas se engajaram
na luta armada, a guerrilha revolucionária:
Roque Aparecido da Silva, José Ibrahim e Eremias Delizoicov militaram na
VPR (Vanguarda Popular Revolucionária); Antonio Roberto Espinosa e José Campos
Barreto na VPR, e depois, na Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares.
Foi com emoção que assisti ao testemunho de José Groff, meu
irmão-camarada desde os anos jovens. E
as tristes imagens do jovem sindicalista José Ibrahim partindo para o desterro no
avião Hércules da FAB no aeroporto do
Galeão no Rio de Janeiro. Em 1979, estava entre os que foram recepcioná-lo no
aeroporto de Viracopos em Campinas – e depois, em uma festa para comemorar a
volta do exílio, na casa da sua mãe no bairro de Presidente Altino.
“Primeiro de Maio não é primeiro de abril”, de 1989, é o
primeiro filme do osasquense Rui de Souza. A produção, roteiro e direção de
“Passaporte para Osasco” não teve nenhum
tipo de financiamento, privado ou estatal, e contou com o apoio da Comissão
Municipal da Verdade de Osasco. É uma realização do Cineclube Alto do Farol, Cineclube
Konopheria e Centro Cineclubista de São Paulo; teve a fotografia de João Brito
Neto – e levou mais de dez anos para ser finalizado. Os depoimentos foram
filmados entre 2005 e 2007, e José Groff, José Ibrahim, Inácio Pereira Gurgel não sobreviveram para assistir ao filme, mas entraram
para a História – e estarão sempre presentes em nossa memória.
Osasco, a cidade marcada pela resistência à ditadura
militar, foi estigmatizada como a cidade da violência pela imprensa golpista. O
filme de Rui de Souza registra a história dos que ousaram desafiar a propaganda
fascista, a repressão, a prisão, o exílio, a tortura, o suicídio, a morte e
desaparecimento de presos políticos.
João dos Reis, Professor de Filosofia e Jornalista. Também colabora com o blog da querida amiga Risomar Fasanaro, que eu sigo : http://risomarfasanaro.blogspot.com.br/
30/05/2016
REPERCUTINDO PPO...
PASSAPORTE
PARA OSASCO
Documentário de Rui de Souza, 90 minutos.
Produção do Centro Cineclubista de São Paulo,
Cineclube Alto do Farol (Osasco-SP) e Cineclube Kinopheria (Itaquera-SP)
Documentário de Rui de Souza, 90 minutos.
Produção do Centro Cineclubista de São Paulo,
Cineclube Alto do Farol (Osasco-SP) e Cineclube Kinopheria (Itaquera-SP)
Assisti, ontem em DVD, ao documentário de
longa-metragem “Passaporte para Osasco”, dirigido por Rui de Souza. O
realizador, que contou com o apoio da Comissão Municipal da Verdade (do
município paulista), é claro em seus propósitos: “Este
filme é fruto de anseio de vários artistas, intelectuais e operários. Aborda a ‘geração 1968’ na cidade. Notadamente a greve de Osasco de julho daquele ano. É também uma singela homenagem a José Ibrahin (1947-2013 ) e seus amigos/companheiros“.
E é isto que ele faz, apoiado em dezena de depoimentos de militantes políticos, protagonistas da Greve de Osasco (1968). Inclusive e, principalmente, o de José Ibrahin, morto há dois anos. Como o filme foi realizado ao longo de muitos anos, Rui e seu fotógrafo João Luiz de B. Neto foram gravando testemunhos. Os melhores são os de Antonio Roberto Spinosa e Roque Aparecido, pois temperados com humor. Ibrahin também têm muito o que dizer, embora o faça sem a pulsão de vida que deve ter marcado sua agitada juventude. Completam a longa narrativa (que por fixar-se praticamente só no recurso do depoimento, às vezes cansa) os testemunhos de duas mulheres — Risiomar Fasonaro e Helena Pignatari Werner, esta, professora e autora de livro sobre as greves operárias de Osasco) — José Groff, João Joaquim Silva, Inácio Pereira Gurgel… Raras imagens (dos corpos de Lamarca e Zequinha mortos, de fotos e manchetes de jornal) tentam (mas são insuficientes) quebrar a repetição de testemunhos dados em super-close. Quando o filme começa, nos animamos. Um jovem Ibrahin aparece em uma loja masculina, na França, falando francês fluente com o rapaz que o atende. Ele prova ternos, pois, anistiado, regressará ao Brasil (1979). O sindicalista dá a entender que não é chegado em ternos, mas que faz questão de desembarcar no Brasil envergando um. Por que?, quer saber o jovem francês. “Porque dizem que os guerrilheiros são terroristas, marginais. Quero mostrar que não somos”. Dá-se um corte temporal e vemos a ‘”geração osasquense de 1968″ já grisalha, passados quase 50 anos. Ibrahin tinha 21 anos na época das greves e da prisão. E conta história impressionante sobre desejo de suicidar-se pulando de um viaduto paulistano, a que seria conduzido pelas forças repressivas, empenhadas em prender “novos subversivos” (ele fornecera um “ponto” falso). Outro bom momento do documentário vem de depoimento de Spinosa, sobre o jornal NP (Notícias Populares), o mais lido pelos sindicalistas: o NP vivia de crimes sensacionalistas, mas era o veículo que fazia “a melhor cobertura das lutas sindicais de nossas bases”. E a cobertura de crimes, a maioria protagonizada por personagens ficcionalizados (a loura-fantasma, o bebê-diabo, o bode estuprador) só fazia aumentar o estigma sobre a cidade. As apelativas capas-manchetes do jornal são mostradas para ilustrar o que diz o militante. Os outros depoimentos são apenas corretos.
filme é fruto de anseio de vários artistas, intelectuais e operários. Aborda a ‘geração 1968’ na cidade. Notadamente a greve de Osasco de julho daquele ano. É também uma singela homenagem a José Ibrahin (1947-2013 ) e seus amigos/companheiros“.
E é isto que ele faz, apoiado em dezena de depoimentos de militantes políticos, protagonistas da Greve de Osasco (1968). Inclusive e, principalmente, o de José Ibrahin, morto há dois anos. Como o filme foi realizado ao longo de muitos anos, Rui e seu fotógrafo João Luiz de B. Neto foram gravando testemunhos. Os melhores são os de Antonio Roberto Spinosa e Roque Aparecido, pois temperados com humor. Ibrahin também têm muito o que dizer, embora o faça sem a pulsão de vida que deve ter marcado sua agitada juventude. Completam a longa narrativa (que por fixar-se praticamente só no recurso do depoimento, às vezes cansa) os testemunhos de duas mulheres — Risiomar Fasonaro e Helena Pignatari Werner, esta, professora e autora de livro sobre as greves operárias de Osasco) — José Groff, João Joaquim Silva, Inácio Pereira Gurgel… Raras imagens (dos corpos de Lamarca e Zequinha mortos, de fotos e manchetes de jornal) tentam (mas são insuficientes) quebrar a repetição de testemunhos dados em super-close. Quando o filme começa, nos animamos. Um jovem Ibrahin aparece em uma loja masculina, na França, falando francês fluente com o rapaz que o atende. Ele prova ternos, pois, anistiado, regressará ao Brasil (1979). O sindicalista dá a entender que não é chegado em ternos, mas que faz questão de desembarcar no Brasil envergando um. Por que?, quer saber o jovem francês. “Porque dizem que os guerrilheiros são terroristas, marginais. Quero mostrar que não somos”. Dá-se um corte temporal e vemos a ‘”geração osasquense de 1968″ já grisalha, passados quase 50 anos. Ibrahin tinha 21 anos na época das greves e da prisão. E conta história impressionante sobre desejo de suicidar-se pulando de um viaduto paulistano, a que seria conduzido pelas forças repressivas, empenhadas em prender “novos subversivos” (ele fornecera um “ponto” falso). Outro bom momento do documentário vem de depoimento de Spinosa, sobre o jornal NP (Notícias Populares), o mais lido pelos sindicalistas: o NP vivia de crimes sensacionalistas, mas era o veículo que fazia “a melhor cobertura das lutas sindicais de nossas bases”. E a cobertura de crimes, a maioria protagonizada por personagens ficcionalizados (a loura-fantasma, o bebê-diabo, o bode estuprador) só fazia aumentar o estigma sobre a cidade. As apelativas capas-manchetes do jornal são mostradas para ilustrar o que diz o militante. Os outros depoimentos são apenas corretos.
Publicado no prestigioso e respeitadíssimo
blog da querida jornalista Maria do Rosário Caetano em (no
dia 03/06/16):
https://almanakito.wordpress.com/2016/06/03/almanakito-03-05-16-nise-mexico-greve-de-osasco-ibrahin-vladimir-safatle-coluna-na-folha-tv-publica-venicio-lima-revista-de-cinema-129/
Minha
resposta p/ ela:
Querida Rô,
Te conto primeiro que como levei muito mais de uma década
para produzir o PPO, “foi natural” que seguisse as lições de Glauber,
Zganzerla, ou de vivíssimos como vc., Zanin, e principalmente Silvio Tendler
no período anotar em vários cadernos (digitais ou não) muitas coisas que
surgiram (claro, principalmente pesquisas). Logo, será igualmente não só
prazeroso, mas muito relevante se conseguir daqui p/ frente torná-los públicos.
Que, como as mais de dez horas de captação das entrevistas que foram excluídas
no corte final, podem perfeitamente formar Extras , ok?
Quanto às correções: 1- O Centro Cineclubista de São Paulo e
Cineclube Kinopheria, em Itaquera, São Paulo, foram fundados
em 2003. 2- O Cineclube Alto do Farol foi fundado em 2005 por nós aqui em
Osasco. 3- O nome correto de alguns entrevistados: Antonio Roberto
Espinosa, José Ibrahim (segundo a doutora Mazé Torquato Chotil no seu livro
(que estou lendo) que acabou de lançar em Osasco, “Trabalhadores Exilados – a
saga dos brasileiros forçados a partir (1964 – 1985)” Ed. Prismas. E que levou
uma cópia do filme p/ Paris), Risomar Fasanaro e Roque Aparecido da Silva. 4-
Ouso lhe dizer que boa parte dos depoimentos podem ser “apenas corretos”, mas
não só em relação a Osasco mas “ao mundo inteiro” , a Greve de Osasco e a
Geração 68 daqui (de SP enfim) ainda merecem muito destaque! Porque você bem
sabe que os Anos de Chumbo carecem de muito estudo, a exemplo de outros países.
Bjs
...................................................................................................................................................
O professor de história Cupertino Santos que afirmou no
Facebook (após o pré lançamento nacional do PPO no Teatro Municipal de Osasco,
em 11/03/16, p/ mais de 150 pessoas. Inclusive com a presença do Lapas, M.
Martins, Mazé, C. Marx, e alguns entrevistados do filme como, Risomar Fasanaro,
J. Joaquim, Espinosa e Roque: “Sai
profundamente impressionado com seu filme ontem, Rui. Se me permite, acho que
sua louvável "obsessão" pelo tema de 68 em Osasco, coloca-o, através
de seu meticuloso trabalho, no patamar do drama universal da luta pela justiça
e pela dignidade humana e, assim, conseguir comover públicos em qualquer parte
do mundo. Sinceramente admirado, abraços.” em 12 de março de 2016.
CONTATOS: Rui de Souza 11 9 8917-4783 rsouza08@yahoo.com.br netodohumbertomauro.blogspot.com
quarta-feira, 18 de maio de 2016
"Ganga Bruta"
HOJE O CANAL CURTA! http://www.canalcurta.tv.br, exibirá "Ganga Bruta" de Humberto Mauro ( 1933, livre) as 22h e 02:00. Imperdível!
domingo, 1 de maio de 2016
FERNANDO FARO: LEMBRANÇA INESQUECÍVEL
DAQUI PARA FRENTE a tendência deste humilde blog não será
apenas para tratar do audiovisual, cinema e cineclubismo como proposto e
executado desde o inicio, enfim como canal exclusivo de minha recente
realização, o doc. PASSAPORTE PARA OSASCO. Aliás, um sinal disso já ocorreu com
uma pequena seleção de clips que já linkei recentemente por aqui...
Afinal, como
aquele genial e maravilhoso filme “Durval Discos” de Anna Muylaert, um
verdadeiro ode a MPB, também tenho uma relação profunda com nossa verdadeira
(talvez única) joia brasileira que é nossa música. Logo, me permitirei mesmo na
base “de um pretenso blogueiro” abordar outras conexões artísticas e culturais
que vivi, vivo e viverei.
Fosse o
Brasil, um país já consciente do seu poderio musical (motivo de inveja
explicita do mundo inteiro...), com certeza desde o dia da perda de Fernando
Faro (Aracaju, 21 de junho de 1927 - São Paulo, 25 de abril de
2016), teria decretado 7 dias de luto, e
demais ações efêmeras e permanentes em respeito e gratidão ao “baixo”.
Ouso trata-lo assim (e assim sempre será!) porque nos começo dos anos
1990, quando de uma visita minha ao MIS (Museu da Imagem e do Som de Sâo Paulo),
para retirar filmes em 16mm para cineclubes
que dirigia naquela época, tive o privilégio de encontrá-lo numa das salas, que
estava sendo exibido um vídeo em VHS da igualmente amada e saudosa Elis Regina,
quando ele comentou comigo (acredite se quiser) “Baixo, ela foi uma das
mulheres mais importantes de todos os tempos!”
Agora, “até ai tudo bem”, ou seja, dei sorte de estar ali com aquela sumidade. Aconteceu porém que o magnetismo que ele
transmitiu eu nunca vi e senti na vida até hoje! Era uma zona de energia
incomum a nós mortais. Sem exagero, parecia uma entidade divina que estava ali
ao meu lado. Enfim, uma sensação amorosa/transcendental digamos assim, que nem
com as minhas melhores mulheres que tive e tenho se é que estou conseguindo
fazer por me entender, conseguiu-se reproduzir. Mas, uma vez considerado que
ele simplesmente conviveu intimamente com todo mundo: Ari Barroso, Orlando
Silva, Lupicinio Rodrigues, Vinicius de Morais, Elis, Nara, Gal, Bethania, Gil,
Caetano, Chico....ficaria uma eternidade citando gente da mais fina e rara qualidade! De fato não poderia ser
diferente.
O fato de só a TV Cultura de SP (ao que se sabe) ter até agora diariamente homenageado ele
na programação, inclusive com programas
especiais como sexta-feira passada e hoje as 21hs, diz muito da “inexpressiva” recordação do mestre. Principalmente porque ,
ele dirigiu, produziu e apresentou por décadas o sensacional programa “Ensaio”. O que ai é óbvio. Mas, repito é muito pouco!
Será mesmo que nossos alunos, a moçada em geral tem dimensão do que
representou e representa uma autentica celebridade chamada Fernando Faro?
Minha profunda consternação ao falecimento do artista Fernando Faro. Um
imortal!
sábado, 30 de abril de 2016
Passaporte para o mundo de Osasco
Fui
a Osasco outro dia, mais por dever de amizade do que de ofício, digamos assim.
Mas no fundo deveria ter ido mais por dever de ofício do que por dever de outra
coisa. Explico. Ninguém é obrigado a nascer gostando disso ou daquilo, e de
cinema também não, mas a gente é obrigado, por dever de ser, no mínimo a ser
curioso... E daqui puxo a orelha de quem sabia e não foi, por preguiça, ou por dez
ou mil outras razões. Quem não foi, perdeu. Perdeu inclusive a oportunidade de encontrar
muita gente boa lá, em muitos sentidos. Apesar da modéstia, foi uma bela festa.
Foi.
A
festa a que me refiro foi o lançamento, ou estreia nacional, de “Passaporte
Para Osasco”, filme de Rui de Souza. Uma obra fílmica que não perde em nada
para um bom filme de arte europeu, ou um bom filme brasileiro. Quem o vir
depois, entenderá do que estou falando... Por enquanto quero dizer mais,
somente e tão de sua forma, de sua estética. Pois, se arte também é simetria,
eis que “Passaporte para Osasco”, de Rui de Souza, tem muito de simetria,
delineamento, capricho, nuanças e estética de um filme feito por mãos de
artesãos que conhecem do ofício. Uma produção, obviamente, feita na cara e na
coragem. Está lá a marca do seu diretor/autor
e também um dos seus colaboradores mais próximos como João Luiz de Brito Neto,
cineasta e cineclubista, que além de diretor de fotografia e câmera, foi quem
fez a edição; está lá também a trilha sonora, tanto a música original composta
por Alcides Neves, como a outra parte da trilha musical do grupo “La Carne”; e
também o cineasta e cineclubista Diogo Gomes dos Santos, com apoio do Centro
Cineclubista de São Paulo quem organizou tecnicamente a sessão, dentre outros
apoios em outras etapas do filme...
Enfim, há tantos colaboradores, que prefiro não tentar citar todos aqui,
porque a lista é grande. Agora, é fato que o filme, “Passaporte para Osasco”, de
Rui de Souza, já não é mais um projeto, bla-bla-bla, é realidade, ora!
E
vamos lá, todos os nós sendo desatados. Na medida dos bons ventos. Se o mar não
vem até nós, vamos a ele! Ufa.
O
Teatro Municipal de Osasco, de uns quinhentos lugares devia ter menos de meia
casa, de algo em torno de uns 150 corajosos amigos de Rui de Souza. Os amigos
e/ou amigos de amigos são sempre suspeitos e bondosos, mas posso dizer que no
final de uma sessão de quase duas horas de filme documentário, não há amizade
ou amigo de amigo que resista a caras e bocas, e ninguém, ninguém mesmo é
condescendente com aquilo que não o é merecidamente bom. No mínimo as pessoas
silenciam, mudam de assunto, inventam outras conversas etc. Mas neste caso,
quem estava lá no Teatro Municipal de
Osasco, no último dia 11 de março, pode testemunhar, não vai me deixar mentir.
As pessoas saíram felizes, caras boas e sem querer ir embora, querendo se estender,
conversar etc... E, se não fosse o bravo Samuel Batista (aliás, quem ajudou a
viabilizar a sessão de lançamento desse filme, com o apoio da Secretaria da
Cultura da Prefeitura de Osasco), no bom
sentido, claro, aquela plateia não teria saído tão cedo do espaço. Oxalá, que
sempre fosse assim, não é verdade?
E o
que lamentei, e lamentamos todos, imagino, é a ausência de muitas das
personagens que estão na fita, que já não se encontram entre nós. Uma pena.
Estão lá José Ibrahin (autor e cedente de grande parte das imagens de
arquivos), José Groff e também uma das figuras mais carimbadas daquela turma, o
saudoso Inácio Gurgel. Além ser uma das expressões daquele movimento grevista,
poeta e militante cultural, é o homem das artes cênicas em Osasco daqueles e
muitos outros anos, um multiplicador de cenas. Digamos assim. Ademais, estão lá também, felizmente, os que
ainda estão (e bem) entre nós: Helena Werner Pignatari, Risomar Fasanaro, Terezinha
Gurgel, Antonio Roberto Espinosa, João Joaquim e Roque da Silva. São todos
personagens importantes desse Movimento Grevista, envolvendo a extinta Cobrasma,
que ainda intriga a muitos, tantos aos mais velhos como às novas gerações. Cujo
poder de mobilização e força contra o regime militar, daqueles anos de 1968,
encontraria par nos movimentos grevistas da cidade de Contagem (abril de 1968),
MG, e depois no histórico e emblemático ABCD paulista, anos depois.
Encerrando
esse modesto texto, sem maiores pretensões, só queria aqui registrar esse
momento tão singular para uma cidade como Osasco, que, se não estou enganado
deve ser este o primeiro ou o segundo filme de longa metragem produzido no
município. Não precisa ser, exatamente, das artes e/ou da área da cultura para saber
da importância disso... E quem não sabe da importância deveria procurar saber.
Assim,
me retiro do Teatro Municipal de Osasco, e volto para São Paulo, de trem, de
onde espero poder continuar observando e ajudando quando possível, ou, se for o
caso, ao menos não atrapalhar quem está produzindo arte por lá. O que já está
de bom tamanho, dada as nossas homéricas tarefas para a sobrevivência nessa
área. Bom, de qualquer forma, eu também já tenho um passaporte para o Osasco. E,
beijo que fui.
(Cacá Mendes)
Poeta e produtor
cultural, e também
Coordenador do “Sarau
dos Conversadores”
www.osconversadores.com.br
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